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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Todo o Amor em Nosso Amor se Encerra

Minha moça selvagem, tivemos 
que recuperar o tempo 
e caminhar para trás, na distância 
das nossas vidas, beijo a beijo, 
retirando de um lugar o que demos 
sem alegria, descobrindo noutro 
o caminho secreto 
que aproximava os teus pés dos meus, 
e assim tornas a ver 
na minha boca a planta insatisfeita 
da tua vida estendendo as raízes 
para o meu coração que te esperava. 
E entre as nossas cidades separadas 
as noites, uma a uma, 
juntam-se à noite que nos une. 
Tirando-as do tempo, entregam-nos 
a luz de cada dia, 
a sua chama ou o seu repouso, 
e assim se desenterra 
na sombra ou na luz nosso tesouro, 
e assim beijam a vida os nossos beijos: 
todo o amor em nosso amor se encerra: 
toda a sede termina em nosso abraço. 
Aqui estamos agora frente a frente, 
encontramo-nos, 
não perdemos nada. 
Percorremo-nos lábio a lábio, 
mil vezes trocamos 
entre nós a morte e a vida, 
tudo o que trazíamos 
quais mortas medalhas 
atiramo-lo ao fundo do mar, 
tudo o que aprendemos 
de nada serviu: 
começamos de novo, 
terminamos de novo 
morte e vida. 
E aqui sobrevivemos, 
puros, com a pureza que criamos, 
mais largos do que a terra que não pôde extraviar-nos, 
eternos como o fogo que arderá 
enquanto durar a vida. 

Pablo Neruda, in "Os Versos do Capitão"

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